Obsolescência forçada
Em 2013 comprei um Kindle. Na época foi um investimento legal: tela de tinta eletrônica, bateria que durava semanas, leve, prático. Usei o bichinho por treze anos. Treze! Já tinha até parafusinho frouxo e capa surrada. E de repente o senhor Jeff Bezos resolveu que eu não podia mais usar o aparelho do jeito que a gente tinha combinado.
A Amazon anunciou que, a partir de uma atualização, meu Kindle não ia mais aceitar livros enviados por USB. E mais: eu não ia mais conseguir baixar os arquivos dos livros que comprei na loja deles. Ou seja, aquele objeto que eu paguei com meu dinheiro, lá em 2013, deixou de ser de fato meu. Bem-vindo à obsolescência forçada digital.
O que é obsolescência forcada?
Obsolescência forcada é quando algo que ainda funciona perfeitamente é propositalmente transformado em lixo — ou quase. No mundo físico, é aquela impressora que para de funcionar depois de um número arbitrário de páginas. É o celular que fica lento depois de uma atualização. É o parafuso especial que só a assistência técnica consegue tirar.
No caso do Kindle, não houve pane. A tela continuava boa, a bateria segurava, o hardware era o mesmo. O que envelheceu de repente foi o acordo entre eu e a Amazon. Eles mudaram as regras e transformaram meu leitor em um tijolinho bonito com Wi-Fi.
O pior é que isso é feito aos pouquinhos, com e-mail bonitinho e mensagem de "atualização necessária". Não parece agressão. Parece conveniência. Mas no fundo é uma forma de você pagar duas vezes: primeiro quando compra o aparelho, depois quando perde o controle sobre ele.
A sorte do modo avião
Aqui entra um detalhe que me salvou: eu sempre usei o Kindle em modo avião. Não por paranoia — só porque não via motivo para deixá-lo conectado o tempo todo. E essa maniazinha boba impediu que a atualização problemática fosse instalada automaticamente.
Como o aparelho ainda estava na versão antiga do sistema, eu consegui copiar todos os meus livros para o computador antes que a porta fechasse de vez. Foi por pouco.
O plano de resgate
Depois de resgatar os arquivos, veio a segunda parte: os livros comprados na Amazon estavam presos por DRM. Para quem não conhece, DRM é uma espécie de cadeado digital. Ele limita onde e como você pode usar um arquivo que, teoricamente, é seu. Um livro com DRM só abre em apps autorizados, só em determinados dispositivos, só enquanto a empresa quiser.
A ironia é cruel: você paga, mas não possui. Você aluga uma permissão de leitura mascarada de venda.
O passo a passo foi mais ou menos este:
- Copiei tudo para o PC enquanto ainda era possível.
- Removi o DRM dos livros, usando ferramentas conhecidas da comunidade.
- Converti os arquivos para EPUB, um formato aberto e largamente compatível.
- Fiz jailbreak no Kindle, ou seja, liberei o aparelho das restrições do sistema da Amazon.
- Instalei o KOReader, um leitor de ebooks livre, leve e muito superior ao software original.
Resultado: o Kindle voltou a ser meu. Literalmente. Eu decido o que entra, eu decido o formato, eu decido como sincronizo.
Sobre o KOReader
O KOReader é um aplicativo de leitura desenvolvido por uma comunidade de voluntários. Ele suporta PDF, EPUB, DJVU, CBZ e vários outros formatos. Tem dicionário offline, anotações, destaques, controle fino de tipografia e uma série de recursos que a Amazon simplesmente não oferece.
E o melhor: ele não te trata como um inquilino num apartamento alugado. Ele te trata como dono do seu próprio dispositivo.
Adeus, Amazon. Olá, Kobo (com ressalvas)
A partir de agora, não compro mais livros na Amazon. Minha nova loja é a Kobo. Não porque a Kobo seja uma ONG de caridade digital — ela também usa DRM na maioria dos ebooks. Mas a diferença é que, pelo menos por enquanto, a Kobo permite o download do arquivo EPUB.
Com o arquivo na mão, eu mesmo removo o DRM e guardo o livro onde bem entender. Minha biblioteca fica hospedada numa instância privada, sincronizada com NextCloud. Assim eu tenho as conveniências da nuvem — acesso em vários dispositivos, backup, organização — sem depender da boa vontade de uma big tech.
Reflexão de final de tarde
O que aconteceu com meu Kindle é um exemplo clássico de como a gente vai perdendo liberdade sem perceber. Compramos, pagamos, assinamos, aceitamos os termos. Só que os termos mudam. O aparelho continua na sua mão, mas o controle não.
A boa notícia é que dá para resistir. Às vezes com um modo avião ligado. Às vezes com um jailbreak. Às vezes simplesmente escolhendo onde gastar seu dinheiro. Não dá para vencer a guerra sozinho, mas dá para ganhar algumas batalhas importantes.
E, no meu caso, dá para continuar lendo no mesmo Kindle de 2013 por mais alguns anos. Toma essa, Sr. Bezos.