Simplificando ferramentas

Desde que comecei a resolver problemas das pessoas usando programas de computador, percebi que existe uma certa romantização da complexidade. Saca só:

  • Instalar o Arch Linux — ou o Gentoo — do zero e montar uma configuração mega blaster;
  • Usar um tiling window manager que ocupa apenas 500 KB de memória RAM;
  • Usar Vim, Neovim, Emacs, Zed ou qualquer outro editor de texto, de preferência configurando tudo na mão.

Não tem nada de errado em gostar dessas coisas. Eu mesmo já fui picado por essa mosquinha. O problema é quando a ferramenta vira o objetivo, e não um meio para fazer aquilo que a gente queria fazer.

Minha percepção atual

Algumas dessas escolhas fizeram sentido para mim por um tempo; outras, nem tanto. Hoje, minha configuração para trabalhar e usar o computador no dia a dia é bem mais simples:

  • Linux Mint Debian Edition, como sistema operacional;
  • Oh My Bash, para dar uma ajeitada no visual do Bash;
  • Micro, como editor de texto;
  • Tmux, para organizar várias sessões de terminal numa só janela;
  • Docker — embora o Podman possa ser minha próxima mudança;
  • ZK, para tomar notas;
  • Na parte de inteligência artificial:
    • Pi, como meu harness — a ferramenta que conecta o modelo de IA aos arquivos e comandos do computador;
    • OpenCode Go, como serviço de assinatura de modelos de IA;
  • Excalidraw, para desenhar diagramas à mão;
  • Archify, para criar diagramas a partir de instruções em linguagem natural;
  • Helium, como navegador para acessar a internet;
  • Marmite, para publicar este blog;
  • Codeberg, para hospedar código e notas.

Essa lista não é uma receita nem uma recomendação para todo mundo. São só ferramentas que, no momento, resolvem minhas necessidades sem pedir que eu passe o dia ajustando configurações.

Simples não quer dizer limitado

Às vezes parece que, para usar bem um computador, a gente precisa escolher a ferramenta mais leve, mais configurável ou mais difícil de dominar. Mas uma ferramenta não precisa ser complicada para ser boa. Se ela faz o que você precisa e não atrapalha, já está cumprindo muito bem o papel dela.

Também não acho que personalizar seja perda de tempo. Aprender como o computador funciona pode ser divertido e útil. A questão é perceber quando estamos fazendo isso porque queremos — e quando estamos fazendo porque a ferramenta exige uma manutenção que já não vale a pena.

Cada hora gasta ajustando o ambiente é uma hora que poderia ser usada para programar, escrever, estudar ou simplesmente descansar. Às vezes, essa configuração toda é o próprio hobby, e está tudo bem. Mas, se o objetivo é terminar um trabalho, é bom lembrar que o computador é uma ferramenta, não uma prova de resistência.

Menos atrito no dia a dia

A edição deste texto é um bom exemplo. Escrevo no Micro e publico usando o Marmite. Não preciso abrir um sistema complexo de publicação nem aprender uma ferramenta enorme antes de começar. Abro o arquivo, escrevo, reviso e publico.

O resultado não é necessariamente o setup mais impressionante para mostrar numa captura de tela. Mas é simples, rápido e agradável de usar — e isso conta muito. Quando uma ferramenta desaparece e deixa a gente concentrado no que queria fazer, ela está fazendo um ótimo trabalho.

No fim, simplificar não é usar menos tecnologia a qualquer custo. É escolher o que resolve o problema e deixar de carregar o que só está ali por hábito, vaidade ou medo de parecer menos técnico. Para mim, um setup bom não é o que dá mais assunto: é o que me ajuda a fazer as coisas e depois sair da frente.